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#NuncaMais - 08/maio/2017

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No dia 12 de outubro de 1979, Marli Pereira Soares testemunhou o assassinato de seu irmão, Paulo, pela polícia militar. E ela não se calou, foi junto com seu pai na delegacia de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, fazer a sua denúncia. Marli deixou claro que a polícia militar e civil invadiu a casa onde ela morava com seus parentes duas vezes e numa delas, ocorreu o assassinato de seu irmão. E enquanto estava no quartel, ela viu três dos policiais militares que tinham invadido sua casa e reconheceu um dos assassinos de seu irmão. A partir dsse dia foi deflagrada a sua longa jornada por justiça… Marli precisou ir mais 30 vezes na delegacia fazer reconhecimentos. Até que passou a ir todos os dias e por isso não conseguia mais emprego e sua subsistência passou a ser decorrente da cobertura que a impressa deu ao caso.

“A primeira vez que vi a proximidade trágica do fenômeno da violência letal e sua incidência sobre as mulheres negras foi no ano de 1979. À época,o noticiário repercutia a história de uma mulher negra cujo irmão foi assassinado pela polícia. Era ditadura militar no Brasil e a mulher, a empregada doméstica Marli Pereira Soares, encarou toda tropa perfilada do 20° Batalhão de Polícia na cidade de Belford Roxo para fazer o reconhecimento dos assassinos de seu irmão.

As poucas imagens remanescentes da época mostram uma mulher negra e jovem (ela tinha 25 anos!) que, caminhando ao lado de autoridades policiais, examinou um a um os rostos dos policiais militares vinculados ao Batalhão, para finalmente identificar o assassino de seu irmão. Até hoje esta imagem me comove: vê-la sozinha e compenetrada, tão próxima do possível assassino, me faz imaginar a dor e a injustiça que a impulsionavam. Penso em seu senso de dignidade e sua visão de justiça. De onde encontraria a força e a determinação para sobrepujar todos os riscos que corria e confrontar o policial assassino, a instituição que o acobertava, os grupos de extermínio que agiam impunes e o poderio militar da ditadura?Esta força (inesperada?) rompeu a barreira de silêncio ditatorial e racista sobre a mídia, obrigando jornais, rádio e televisão a abandonar a linguagem usual do estereótipo, para narrar uma morte em nada inesperada e, principalmente, a reação a ela protagonizada por uma mulher negra jovem. Esta, viria a ser chamada de “Marli Coragem”.